segunda-feira, 7 de junho de 2010

ATIVIDADE CAPACITAÇÃO CONTINUADA





























Queridos Professores,


Quero parabenizar os professores assíduos em nosso Blog! Vamos continuar crescendo juntos, trocando experiências e aprendendo.


PROPOSTA: Ler o texto "Osarta" de Lygia Bojunga Nunes (abaixo) e confeccionar uma questão de análise linguística OU de interpretação de texto.


PRAZO PARA POSTAGEM: 16 de junho (quarta-feira)






Osarta

A escola pra onde levaram o Pavão
se chamava Escola Osarta do
Pensamento. Bolaram o nome da
escola pra não dar muito na vista.
Mas quem estava interessado no
assunto percebia logo: era só ler
Osarta de trás pra frente.
A Osarta tinha três cursos:
o Curso Papo, o Curso Linha e o
Curso Filtro.
O Curso Papo era isso mesmo:
papo. Batiam papo que só vendo. O Pavão até que gostou; naquele tempo o
pensamento dele era normal, ele gostava de conversar, de ficar sabendo o que é
que os outros achavam, de achar também uma porção de coisas. Só que tinha um
problema: ele não podia achar nada; tinha que ficar quieto escutando o pessoal
falar. Se abria o bico ia de castigo; se pedia pra ir lá fora ia de castigo; se cochilava
( o pessoal falava tanto que dava sono), acordavam ele correndo pra ele ir pro
castigo.
O Pavão então resolveu toda a hora abrir o bico, ir lá fora, cochilar - só pra ficar
de castigo e não ouvir mais o pessoal falar. Não adiantou nada, deram pra falar na
hora do castigo também. E ainda por cima falavam dobrado.
O Pavão era um bicho calmo, tranquilo. Mas com aquele papo todo dia, o dia
todo a todo instante, deu pra ir ficando apavorado. Se assustava à-toa, qualquer barulhinho
e já pulava pra um lado, o coração pra outro. Pegou tique nervoso: suspirava
tremidinho, a toda hora sacudia a última pena do lado esquerdo, cada três quartos de
hora sacudia a penúltima do lado direito.
O Curso Papo era pra isso mesmo: pro aluno ficar com medo de tudo. O pessoal
da Osarta sabia que quanto mais apavorado o aluno ia ficando, mais o pensamento dele
ia atrasando. E então eles martelavam o dia inteiro no ouvido do Pavão:
– Não sai aqui do Curso. Você saindo, você escorrega, você cai, cuidado, hem?
cuidado. Olha, olha, você tá escorregando, tá caindo, não disse?! Você vai ficar a vida
toda pertinho dos teus donos, viu? Nâo fica nunca sozinho. Ficar sozinho é perigoso:
você pensa que tá sozinho mas não está: tem fantasma em volta. Olha o bicho-papão.
Cuidado com a noite. A noite é preta, cuidado.
Inventavam coisas horríveis pra contar da noite. E diziam que se o Pavão não
fizesse tudo que os donos dele queriam, ele ia ter brotoeja, dores de barriga horrorosas,
era até capaz de morrer assado numa fogueira bem grande.
O Pavão cada vez se apavorava mais . Lá pro meio do curso ele pegou um jeito
esquisito de andar: experimentava cada passo que dava, pra ver se não escorregava, se
não caía, se não tinha brotoeja, se não acabava na fogueira. E na hora de falar também
achava que a fala ia cair, escorregar, trancava o bico, o melhor era nem falar. E então as
notas dele começaram a melhorar.
No princípio do curso o Pavão só tirava zero, um, dois no máximo. Mas com o
medo aumentando, as notas foram melhorando: três, quatro, cinco; e teve um dia que
o Pavão teve tanto medo de tanta coisa que acabou ganhando até um sete. (Nota dez
era só pra quando o aluno ficava com medo de pensar. Aí o curso estava completo,
davam diploma e tudo.) No dia que o Pavão ganhou nota sete, de noite ele sonhou. Um
sonho muito bem sonhado, todo em tom amarelo, azul e verde alface. Sonhou que o
pessoal do Curso Papo falava, falava, falava e ele não escutava mais nada: tinha ficado
surdo. Acordou e pensou: taí, o jeito é esse. Foi pra aula. Estavam encerando o
corredor da escola. Pegou um punhado de cera e, com um jeito bem disfarçado, tapou
o ouvido. Daí pra frente o Pavão ficava muito sério olhando o pessoal do Curso
falando, falando, e ele - que bom! - sem poder escutar.
Fizeram tudo. Falaram tanto que ficaram roucos. Um deles chegou até a perder
a voz. Mas não adiantava: o medo do Pavão não aumentava; não se espalhava;
tinha empacado na nota sete e pronto. Resolveram então levar o Pavão pro Curso
Linha.
E o Pavão foi. Com um medo danado de cair. Examinando a perna a toda hora,
pra ver se uma coceirinha que ele estava sentindo já era a tal brotoeja.
Suspirando tremidinho. Sacudindo a última pena e a penúltima também. Mas fora
disso - normal.


NUNES, Lygia Bojunga. A casa da madrinha. Rio de Janeiro: Agir, 1985. p.24-26.

5 comentários:

  1. De acordo com o texto 'Nota dez
    era só pra quando o aluno ficava com medo de pensar. Aí o curso estava completo,
    davam diploma e tudo'. Dentro deste contexto qual significado da palavra pensar? Que tipo de aluno o curso pretendia formar?

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  2. Segundo a autora'(...)Mas com o medo aumentando, as notas foram melhorando: três, quatro, cinco; e teve um dia que o Pavão teve tanto medo de tanta coisa que acabou ganhando até um sete.' Analisando criticamente o texto, o que podemos concluir a respeito da metodologia adotada pelos professores da Escola Osarta?É eficaz?Deve ser adotada por outros professores?

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  3. O Pavão passou por várias etapas ao chegar à escola. Cada etapa tinha tarefas a cumprir. De acordo com o texto como era a escola que Pavão estudava? Ela ajudava na preparação do Pavão para a vida?

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  4. Em determinado momento o texto representa conselhos ao pavão que aparentemente dão a conotação de cuidado de Osarta "Nâo fica nunca sozinho. Ficar sozinho é perigoso:
    você pensa que tá sozinho mas não está: tem fantasma em volta. Olha o bicho-papão.
    Cuidado com a noite. A noite é preta, cuidado."
    Qual seria a real intenção dos conselhos?

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  5. Célia Regina
    Escola Osarta do Pensamento. Um nome interessante para uma escola que não incentiva seus aprendizes a pensar sozinhos. O medo não pode ser uma ferramenta didática em da sala de aula.É incoerente com o ofício de ensinar.Ao refletir sobre a metodologia usada,qual o referencial teórico comportamental usado pelos docentes dessa Escola?

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