Eram quatro e meia da manhã (leia-se madrugada para alguns) do dia 25 de abril, quando chegou o primeiro aluno. E depois outro e outros. O motivo de tamanha ansiedade e saudável expectativa era o passeio cultural do Colégio Adventista do Novo mundo a Cidade de Goiás. A interdisciplinaridade entre as disciplinas de história e literatura, coordenadas respectivamente pelos professores Geniscley Tavares e Sarah Bertolli, partiu da necessidade de contextualizar o conhecimento, apresentando-o de uma forma mais interessante, prazerosa e concreta aos alunos dos 2º e 3º anos do Ensino Médio. Afinal, estudar a história de Goiás com suas particularidades culturais, literárias e de formação do homem e da sociedade na terra do pequi é mais bem assimilada ao subir e descer as infinitas ladeiras de nossa primeira capital.
O clima (exterior e interior) era de sorriso largo e amizade. O entusiasmo foi geral ao chegarmos ao nosso destino. O guia Rafael, que já nos aguardava, conduziu-nos ao Museu das Bandeiras, onde a introdução ao estudo ocorreu em um ambiente misterioso e cenário de atrocidades em séculos passados: uma cadeia para escravos, a primeira “sala” visitada do Museu. Os olhares atentos dos alunos e o silêncio reinante demonstravam que até o ar quente e úmido daquele dia tornariam o passeio inesquecível.
Após conhecermos mais sobre os pioneiros goianos e os fatos marcantes de nossas primeiras décadas, registramos através de câmeras fotográficas e da vontade de aprender as peças originais de séculos XVII e XVIII ali expostas, os instrumentos de tortura, os objetos da cultura indígena, o mobiliário de cada cômodo da casa do “senhor”; e para além de apenas vermos, refletimos: sobre a questão antropocêntrica e suas consequências em tempos coloniais e pós-modernos, a segregação em classes sociais e como as nossas raízes regadas em sangue fez brotar em nós preconceitos que em plano edênico não existiam.
Em seguida, caminhamos (observados pelas janelas indiscretas e intrigantemente gêmeas) até a Casa de Cora Coralina, museu-moradia da famosa poetisa e doutora honoris causa pela Universidade Federal de Goiás. Antes de vasculharmos com o olhar cada canto de inspiração dos versos simples e significativos da famosa ex-doceira, visitamos a igreja da Boa Morte e conhecemos (através do guia Rafael) suas lendas.
Bebemos água da fonte (do saber, principalmente), sentimos o cheiro da história de verdade, compreendemos as inquietações literárias da doce senhora e ainda saboreamos picolés de fruta do ancião nativo da região, e depois conhecemos o Palácio, o qual recebe uma vez por ano a família do governador, já que a Cidade de Goiás volta a ser (neste período simbolicamente curto) a capital do estado. Os retratos na parede (bustos pincelados de antigos governadores) nos indicavam como há riqueza no saber concreto, no ver e no sentir para uma absorção efetiva do conhecimento. Os pratos pintados a mão, a arquitetura, a fonte tão bela – protagonista do quintal palaciano – são recortes que permanecerão em nossa lembrança.
Após muito suor, risadas e ladeiras, aproveitamos o restante do dia no maravilhoso Balneário Santo Antônio, onde nos servimos de típica comida caseira, conhecemos melhor nossos amigos, conversamos, brincamos, caminhamos, nadamos e desfrutamos as belezas naturais do lugar, pinceladas ainda mais perfeitas e instigantes do nosso Criador.
Sim, aprendemos muito. E voltamos satisfeitos e com vontade de “quero mais”.
O estudo foi realmente de troca de saberes, de forma horizontal e significativa. Os professores Geniscley e Sarah e o vice-diretor Douglas (que também coordenou o passeio) também aprenderam, também ensinaram... Porque na vida, afinal, todos somos alunos.
E encerramos com poema da consagrada Cora, coração de Goiás, para que sempre recordemos esses momentos singulares:
“Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas. Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar. Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.”
